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A PARTILHA

31.07.10 - 9:40

ZÉ PRETO acordou noite alta e sentou-se na rede. Difícil afastar pensamentos indesejáveis, conciliar o sono.  Não costumava despertar àquela hora. Às vezes isso acontecia, porém, passados alguns instantes voltava a adormecer.  Procurou desenvolver idéias costumeiras. Pensou em preparar grande roçado, trabalhar duro com a família para superar as safras antes obtidas. A necessidade de produzir mais dominava a sua vontade, impunha-se com muita força – em casa a precisão era grande. Atrapalhou-se na estimativa de sua participação na colheita, no preço da venda. Profecias sobre o inverno, ouvidas em conversas nas feiras, divulgadas pelos vendedores de folhetos, perturbavam ainda mais o seu espírito.  Época já era para escolher terra para brocar. Depois queimaria a madeira, encoivararia, faria cercas, esperaria o inverno em janeiro, em fevereiro, dilatando o prazo até o Dia de São José, data em que se esvairiam todas as esperanças de colheita se as chuvas não começassem a cair regularmente.
 
Os pássaros começaram a cantar. Zé Preto saiu para o terreiro quando o sol levantava-se no horizonte. Em tudo via a chocante mo-vimentação do mundo, e avaliava suas lembranças. Ouvia falar da nova compreensão das coisas fora do sítio onde morava.  Histórias do Sul. Certa vez a mulher respondera às suas observações: “Deixe como está, homem. As coisas só mudam quando Deus quer. Os mais velhos já disseram com a sua experiência, que a providência divina resolve todos os casos.”
 
As palavras não o convenciam. A realidade de sua existência agreste, o encaminhamento da família prolongando a sua vida, lutando contra a natureza, as regras do trabalho, buscando soluções para velhos problemas que perduravam, diziam-lhe o contrário.
 
 Escutou longe o ruído do motor de um carro. Era o fazendeiro que chegava. Súbito o homem apareceu em pé na sua frente, inesperadamente, como uma visagem. Chegara o dia da partilha com o proprietário, do produto do inverno, fruto do seu trabalho incessante. Gritou para dentro de casa:
 
- Venha um para ajudar! - E entrou pela porta da frente na casinha de taipa. Todos estavam acostumados com a cena a cada ano. Sempre fora assim.
 
Acorreu um meninote vestindo um calção de pano de saco, o esqueleto projetando-se no corpinho mirrado. Aborrecido e contrariado Zé Preto começou a medir o feijão na salinha com as varas saindo do reboco esburacado da parede. A pobreza saltava aos olhos. Não se acostumara ainda à atividade antiga, conhecida desde o tempo de menino, quando ajudava o pai na entrega da parte da safra que cabia ao dono da terra. Mas ainda gritara ordem para fazer café para o patrão. E cantava a soturna cantilena:
 
-  Uma pra fazenda, uma pra mim - falava, enchendo e esvaziando a cuia.
 
A criança arfava com a poeira entrando pelo nariz, os detritos soltando argueiros nos seus olhos. Quase perdia o fôlego.
 
O feijão estava amontoado no chão, num canto da parede. Chiava na medida de zinco, desprendia pó, fazia tossir o seu filho mais novo que ajudava o fazendeiro a abrir a boca do saco onde era guardado. O grande volume cônico partia-se na medição, dividido em dois. Lá fora o sol amarelo e brilhante calcinava a terra. Os raios de fogo bebiam a água dos poços nos riachos, dos açudes, a seiva das plantas. O vento livre soprava quente, limpava o chão, levantava folhas secas e garranchos, sujava o céu muito azul. Acorriam-lhe pensamentos: “No Sul como eram as coisas?”
 
Subitamente o vento começou a soprar mais forte.  Rugiu na catinga. Virou redemoinho. O hálito de fornalha entrou na casa cobrindo tudo de terra. As frágeis janelas e portas balançaram-se nas dobradiças de sola e bateram com estrondo, sacudidas pela venta-nia. Sufocados, todos esten-deram os braços para frente, uniram os indicadores em forma de cruz, exorcismando. Quando o vento abrandou o sopro, escutaram, na cozinha a mulher gritar alto:
 
—  T’esconjuro, capeta!
 
Tudo ficou quieto. O calor tornou-se mais opressivo. Zé Preto olhou para fora e viu a catinga retorcida - o mundo que consumia a sua vida.  Ao seu lado, Antonino Carcará, o fazendeiro, de olhos rebrilhantes e nariz recurvo, como o bico da ave carniceira que lhe dera o sobrenome, contrariado, reparava no caçula de Zé Preto que arfava sufocado, con-vulsivamente, com a cabeça enfiada no saco: cumpria um destino que passava de pai para filho.
 
Encolerizado, Antonino estrilou num grito rapinante:
 
-  Agora não me lembro de quem é a próxima cuia. Perdi a conta. Este vento condenado atrapalhou... Vamos começar a partir outra vez. Do meu jeito.   (“AS HORAS TRÁGICAS – Histórias do Campo e da Cidade”. Editora UFPB 1997)
 

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