Capão de Mato
23.07.10 - 19:24
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Estas notas alinhadas que levam o título “Capão de Mato”, se propõem certamente serem enfeixadas em livro: romance, diário, jornal. Seja o for continuarei a redigi-las, porque a esta altura da vida fustiga-me impiedosamente a memória carregada de lembranças. Nada de teses, de dissertações científicas, e citações eruditas sobre a vida e a sociedade dos homens, sua origem, seus costumes, seus dramas, suas instituições, seu destino. Deixei-as de lado sem perceber, fui assaltado por reflexões ao sabor do pensamento. Lembranças somente, marcadas de chofre em inesperadas definições que alcançam conceitos e equações filosóficas, sociológicas, mas a que não recorrerei. Constituem inegavelmente uma epígrafe explicativa, como disse na abertura, conto obscuro e enigmático sobre pessoas e acontecimentos que envolveram a minha vida, oferecendo-se à análise e decifração.
Acontecia no nosso mundo chegada das máquinas, ferramentas que produziam coisas, então quase desconhecidas naquele meio que sobrevivia da prática artesanal do ferreiro, do marceneiro, do trabalhador braçal, enfim, que mudariam as relações e a vida das pessoas, provocando no futuro reações tão surpreendentes que me transportavam a situações de nítida revivescência existencial, quando exsurgiam na insônia de uma noite dominada pelos terrores imemoriais, desconhecidos na sua essência. Os animais de trabalho, contudo, ainda dominavam a cena: o carro de boi, tropas de burros e jumentos, transportando cargas, mercadorias: água e lenha, coisas do “reino” que eram industrializadas, enlatadas - a manteiga e o queijo, a farinha de trigo -, mantimentos para o comércio, para as residências; e o mercadejar ambulante incansável, de porta em porta com a voz e o grito dos homens subjugando os animais, na sua ação impenitente mostrando os fios constititutivos do tecido social, o que são, o lugar e o momento de cada um, o mundo como ele é. Como um objeto envolvido numa aura, que distribui aquela luz difusa envolvendo os corpos físicos, qual a dos santos, de que falam as religiões na busca de nova vida noutro mundo, clarificando o ambiente psicológico - que seria algum dia recu-perado e recomposto -, encontro-me iluminado e renascido em horas solitárias, a mente viajando no tempo. Estas circunstâncias são lembradas porque as suas marcas correspondem a conceitos que constituíam o enredo característico, social e humano da época. E as famílias, assim se cumpri-mentavam e se protegiam, se combatiam em confrontos que atravessavam gerações.
O recolhimento ocasional e taciturno do meu pai, sozinho na sala, sentado numa cadeira de balanço, o olhar perdido, quando enfrentava questões difíceis, acredito, impressionava todos. Fumava um charuto enchendo a casa com o cheiro agradável de fumo especialmente tratado, tecia planos, organizava projetos, segurando um livro ou um jornal, que certamente não lia, apenas compunha e oferecia à cena uma expressão quase imaterial, que intranqüilizava como uma assombração os que o cercavam, mas articulava-se no diálogo da cidade silenciosa: escutando-se a conversa dos vizinhos, gritos e exclamações mais afastados, o dobre do sino da igreja; assim eu via também, o flanar desinibido de minha mãe nas salas, com o toque de elegância do inseparável cigarro que complementava o seu traje, desenhado nos modelos em moda, mostrando álbuns de foto-grafias, a caixa negra retangular da Kodak com o seu olho e botões, cujo manejo ela explicava; e objetos de uso pessoal, cercada de amigas que a fortuna e a mocidade atraíram. Ela falava sorridente e criava ou rememorava fatos ilustrativos de um ambiente familiar de escol onde vivera, orgulhosamente, repontando nas suas narrativas acentos na voz, rebrilhar dos olhos castanhos, o esmalte das unhas, e um toque que as iluminava e criava sensações. Fora uma notável entre as da sua cidade, e entendia que era preciso que outros soubessem desta feliz quadra, se esforçava para que outros a conhecessem as pessoas, as famílias da nova urbe onde passara a residir. A sua voz argentina carregava naquele tempo o valor de moeda corrente cunhada em ouro ou prata. Estas lembranças voltariam em momentos certos na minha vida, como uma necessidade de remontar às minhas origens, e ainda hoje se misturam, em projeções que concretizam uma simples meditação, transformando-as em fantasias que trazem como fundo sonoro, o canto melódico do coral orfeônico da escola normal, elogiado e admirado na cidade, regido pelo circunspecto maestro Nicodemus, regente da banda de música – vozes que murmuravam ou se levantavam graves, soavam como trinados maviosos de passarinhos. Ah! imorredouras canções sertanejas em noites solenes, marcadas pela etiqueta adotada pela elite da socidade: rimas do “Luar do Sertão”, das “Saudades de Matão”, da “ Terra da Boa Esperança” ... Quantas cidades, que pessoas beberam o elixir mágico desses momentos!
Apesar da postura truanesca e dada a bebedeiras, característica das pessoas de sua família – os irmãos, as irmãs do maestro eram exímios declamadores e contadores de anedotas, também musicistas -, destacava-os e os protegia a habilidade, e o requinte de outros parentes, soltando a voz, dedilhando um violão, no conhecimento e na execução de temas em apre-sentações musicais, e os que possuíam fortuna; tais circunstancias e episódios, atenuavam a crítica e consentiam alguns excessos, que muitas vezes se tornaram vexatórias. Grande maestro N. F.! Tocava todos os instrumentos de uma banda filarmônica! Um artista consumado que espantava o nosso lugar. Passando em frente às suas residências, escutavam-se conversas em voz alta entremeadas de risadas e pancadas em mesa, arrastar de cadeiras, tocar de copos como num bar-restaurante. Assim alegremente viviam eles. “A. se destaca pelo tamanho, porque canta bem, dança com elegância, freqüenta a sociedade”, elogiavam para acrescentar a crítica irrespondível: “T tem o brilho da inteligência que todos conhecem, porém vai morrer no balcão de uma bodega”.
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