CAPÃO DE MATO
22.07.10 - 15:44
(Carta da Fazenda)
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Ali está na frente da casa, a ilha vegetal, o capão de mato. Surgiu como uma epígrafe, num tempo de minha vida - um símile extravagante –, quando já avançado na idade me mudei da cidade para a fazenda: eu um citadino, menino de rua, de circo, de grupo escolar, de igreja, um estranho no lugar, que ali a minha presença noutro tempo, era ocasional vilegiatura, não era voltada para o trabalho e o dinheiro, motor das mudanças sociais, de que se ocupavam os proprietários de terra e os seus confinados mora-dores. Memória simplesmente infantil, familiar, que deixa suas marcas indeléveis em surpresas e aventuras insólitas, próprias da idade e se estende pela vida toda. Como sentenciaram poetas, a pátria é a infância. Agora eu descobria que vivia em outro mundo: a paisagem iluminada pelo brilho ofuscante do sol tropical, o calor fatigante molhando a roupa de suor. Estava ali. Era o lugar. A beleza dos tempos convividos distanciara-se, buscava-a perdida no tempo. A disputa e o confronto caracterizam con-quistas da vida adulta, em rememorações muitas vezes dolorosas, outras venturosas: o cenário desaparece, transforma-se, mas a vitória, a posse, o resultado é o que sobra, porque sem um caminho escolhido, eu me perdia em angustiantes análises pessoais. Aprendia com a vida dos santos, dos heróis da pátria, sempre lembrados. Como encontrar a memória na sua realidade fática mais pessoal, induzindo destinos coletivos?
No campo, que eu observava, inserido espetacularmente no seu contexto social, ambiental, persistia o fabulário que vinha das incursões reinois e das crendices fetichistas/sincretistas dos escravos de origem negra ou indígena, que perdurou até a explosão da migração da população do campo para a cidade na evolução da crise do capitalismo. Isto pouco importava à maioria das pessoas, mas era essencial e vital para mim.
O que eu fazia ali, por que estava ali? É verdade que a vida rural e a das pequenas cidades no semi-árido nordestino, quiçá em todo mundo, se compensam nas regiões mais atrasadas. Daí pensarmos e nos comportarmos, quase como iguais, comparecendo às mesmas festas – as “quatro festas do ano” -, cívicas, mi-litares e religiosas principalmente, guardando as mesmas lembranças, vezes alegres, vezes trágicas, outras solenes e monumentais como a celebração litúrgica da Semana Santa, o garbo militar do Sete de Setembro, seme-lhantes no seu conteúdo místico-pedagógico, patriótico. É preciso preservar os valores que construíram a história do lugar, das pessoas.
Este um aspecto da incansável porfia. As famílias agitavam-se em projetos acalentados, alimentados na organização da indumentária, detendo-se na escolha de tecidos e modelos, causando longas discussões, antevendo-se a passagem dos grupos pelas ruas com sua absoluta identidade, eviden-ciando-se gostos e preferências, posses, inquietação com o aspecto financeiro que determinaria a realização do acontecimento com a plena satisfação de cada um. E dores se acumulavam na consciência dos adultos, no magoado coração dos adolescentes. Convivia-se dessa forma, coletivamente, sem incontornáveis e maiores preconceitos até a chegada das eleições disputadas pelos partidos políticos.
Aí sim, tornavam-se públicas as diferenças, as ofensas e disputas entre grupos que se organizavam, ameaçadoramente, mas revelando-se inevitavelmente oportunistas nas pretensões de cada um. E essas reminiscências se infiltram, irresistivelmente, nas minhas solitárias reflexões em busca do tempo passado, horas a fio, povoadas de vultos e acontecimentos significativos para a vida local, para as minhas inesperadas decisões, determinando relacionamento conflituoso, traumas psíquicos que emergem do fundo da consciência, se evidenciam em alguns momentos, como crises, quando ultrapassam a simples visão fenomenal, paisagística, figurativa da circunstância que as arquitetou, lhes deu origem.
Será este, o destino do homem? O destino, porventura existe? Primeiro é preciso saber do homem como massa biológica, e de sua presença como ser inteligente no cosmo onde ele se encontra. O que lhe sobra dessa condição? O espírito, que seria outra categoria, outra forma do real?
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